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ATENDIMENTO A PESSOAS TRANSEXUAIS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

ISADORA CRISTINA OLESIAK CORDENONSI

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Objetivos

Ao final da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de

  • reconhecer a importância da qualificação do médico de família e comunidade (MFC) para o atendimento à população transgênero por meio de informação prática sobre como pode ser realizado o acompanhamento integral desses pacientes na Atenção Primária à Saúde (APS);
  • realizar o diagnóstico de disforia de gênero;
  • avaliar as contraindicações e precauções necessárias para o início da hormonioterapia e como pode ser prescrita;
  • identificar os exames que devem ser realizados no acompanhamento aos pacientes.

Esquema conceitual

Introdução

A população transgênero apresenta grande insatisfação em relação aos serviços de saúde, em função de experiências prévias negativas nesses locais. As principais barreiras descritas são falta de respeito ao nome social, despreparo da equipe de saúde sobre o tema transexualidade, falta de confiança no profissional e discriminação. Para mudar essa insatisfação, é essencial promover o atendimento qualificado a essa população na APS, pois esse é o local de primeiro acesso ao serviço de saúde, no qual a longitudinalidade e integralidade são premissas consolidadas.1–3

Dessa forma, fornecer o atendimento adequado permite que a pessoa se sinta acolhida com suas demandas, possibilitando que o cuidado amplo, incluindo a hormonioterapia, seja realizado em sua comunidade, evitando deslocamentos desnecessários, além de promover a otimização dos recursos de saúde. Os ambulatórios da atenção especializada a esses pacientes são escassos, com tempo prolongado na fila de espera; logo, o atendimento na APS permite uma avaliação mais breve, evitando o uso inapropriado de hormônios e a realização indevida de procedimentos, promovendo prevenção quaternária.1–3

O adoecimento mental na população transgênero está muito relacionado à exclusão social e à violência a que esses indivíduos estão submetidos. O sofrimento de exclusão pode causar transtornos, como depressão, automutilação, compulsividade, transtorno de personalidade borderline e/ou histriônico, transtornos alimentares e sintomas psicóticos. História de abandono familiar também é comum e contribui para o agravamento dos sintomas. O uso de tabaco, álcool e outras substâncias psicoativas também é maior em pessoas transexuais do que entre a população cisgênero. Dessa forma, é fundamental o acolhimento das demandas em saúde mental dessa população para que o cuidado seja integral e de qualidade.2

Além disso, essa população encontra dificuldade para concluir o ensino formal em ambientes não inclusivos e para se inserir no mercado de trabalho.2 O Brasil, atualmente, é o país que mais registra assassinatos em números absolutos da população trans e apresenta uma média diária de 11 notificações de agressão de pessoas trans por dia. Aproximadamente 80% das pessoas trans assassinadas em 2019 eram negras, 60% tinham entre 15 e 29 anos de idade, 67% eram profissionais do sexo e 64% foram executadas nas ruas.4

A população trans, pela vulnerabilidade social e pela falta de acesso ao serviço de saúde e de informação de qualidade, possui maior incidência de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Esse dado deve servir como alerta para a necessidade de abordagem sobre sexualidade e avaliação de risco individual. Caso seja detectada maior vulnerabilidade a ISTs, deve-se ofertar testes rápidos, orientar sobre formas de prevenção e realizar o acolhimento adequado para o manejo de alguma infecção se detectada.2

A maioria dos cursos de medicina falha na formação de competências para o cuidado integral aos usuários transexuais, e, assim, os profissionais da APS ficam inseguros em realizar o manejo desses pacientes. Dessa forma, este capítulo tem o objetivo de esclarecer as principais dúvidas em relação ao atendimento desses pacientes, a fim de facilitar a prática diária e promover o cuidado de qualidade a esses indivíduos.1,2

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