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PSICODRAMA, SOCIODRAMA E ABUSO SEXUAL INTRAFAMILIAR

ARNALDO BARBIERI FILHO

ANA MARIA FONSECA ZAMPIERI

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Introdução

É aconselhável organizar sessões psicodramáticas a serem transmitidas ao mundo desde uma estação de televisão... a audiência deve constituir um pequeno grupo de indivíduos que representam os papéis dominantes na comunidade em geral e informantes dos conflitos sociais correntes.1

Nascido na Romênia em 1898, o psiquiatra e dramaturgo Jacob Levy Moreno teve sua formação em Viena. Sendo judeu, contemporâneo de Freud, mudou-se para os EUA, onde desenvolveu seus trabalhos com o psicodrama, tornando-se o pai dessa interessante linha terapêutica.

“Aguardamos soluções da ciência que nos ajudem a conseguir paz, harmonia, justiça e vida e bem-estar”, já relatava Moreno, desde 1921.1 Quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa, na Espanha, pela Universidade de Barcelona, em 14 de outubro de 1968, o psiquiatra vienense descreveu como os métodos psicodramáticos poderiam colaborar com a conquista do espaço cósmico para uma das soluções da superpopulação com visão sistêmica. Desenvolveu os conceitos de espontaneidade e criatividade nos indivíduos como caminhos para grandes transformações a fim de que pessoas pudessem garantir independência e saúde mental.

Moreno valorizava a sociologia e a necessidade de desenvolver uma psiquiatria pela humanidade, que chamou de sociatria. Em sua obra Quem sobreviverá?, afirmou que um verdadeiro procedimento terapêutico deve ter, como objetivo, a totalidade da humanidade. 2 Propôs a psicoterapia de massas na busca da paz universal, ao que denominou terceira revolução psiquiátrica: uma psicoterapia do povo, pelo povo e para o povo. Também propôs que o psicodrama ajudasse os seres humanos a se voltarem para si mesmos, na busca do significado de suas vidas.

Moreno discordava da filosofia grega, que afirmava ser a realidade cotidiana uma imitação dos deuses imortais; para ele, a realidade é uma condição da genialidade humana. Afirmava que o encontro no psicodrama e no sociodrama não é produzido em situação de artificialidade, pois as pessoas alcançam verdades de suas vidas e são levadas ao encontro de seus próprios selves.3

O encontro é improvisado, não estruturado, não planejado e não ensaiado. Ocorre no instante do “aqui e agora”, em um total de interações entre duas ou mais pessoas, não em um passado morto, nem em um futuro imaginado, mas na plenitude do tempo, na convergência de fatores emocionais, sociais, cósmicos, de identidade e reciprocidade. Moreno afirmava: “deveríamos fazer do encontro humano a essência da existência”.3

Ao contrário da psicanálise, que utiliza a linguagem verbal, o psicodrama trabalha com a ação. Elementos como o protagonista, o diretor e os egos auxiliares dramatizam conflitos humanos e depois compartilham tais cenas juntamente com os observadores, discutindo-as.4

No psicodrama, podem ser encenados fatos do passado, do presente, do futuro, bem como sonhos, alucinações, e até objetos ganham vida. Enfim, tal método envolve tudo que um palco de teatro oferece. Aborda o mundo interno e as relações externas do indivíduo.4 Pode ser grupal, bipessoal e também na forma de psicodrama interno, em que o paciente trabalha seus conflitos por meio de imagens mentais. Por outro lado, o sociodrama trabalha o grupo e seus dramas, como uma recente tragédia natural, por exemplo.5

Objetivos

Ao final da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de

 

  • reconhecer o psicodrama como opção de tratamento psicoterapêutico individual de vivências traumáticas ligadas a abusos sexuais intrafamiliares e o sociodrama como psicoeducação sexual em grupo preventiva do mesmo tema;
  • diferenciar psicodrama, sociodrama e psicodrama interno;
  • reconhecer os conceitos técnicos de tele, espontaneidade e criatividade do psicodrama e do sociodrama;
  • identificar instrumentos da sessão psicodramática;
  • analisar técnicas do psicodrama e do sociodrama, como duplo, solilóquio, inversão de papéis e jogral;
  • caracterizar os fenômenos de tele.

Esquema conceitual

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