Entrar

Esse conteúdo é exclusivo para assinantes do programa.

Reabilitação neuropsicológica: uma abordagem neurocognitivo-comportamental

Helenice Charchat Fichman

epub-PROCOGNITIVA-C10V3_Artigo4

Objetivos

Ao final da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de

  • descrever a prática da reabilitação neuropsicológica (RN) inserida em uma abordagem holística e clínica;
  • identificar as interfaces da RN e a psicoterapia cognitivo-comportamental;
  • descrever os avanços tecnológicos que têm contribuído para o processo de RN.

Esquema conceitual

Introdução

A neuropsicologia clínica é uma área da psicologia que tem como campo de atuação profissional as práticas de avaliação, intervenção preventiva e reabilitação.1,2 Ao longo do século XX, especialmente durante e após as guerras mundiais, se consolidou como área de conhecimento para tratamento de pacientes com lesões cerebrais adquiridas. Em 1967, a International Neuropsychological Society foi fundada marcando o início da institucionalização da área, seguida pela criação da divisão 40 — Clínical Neuropsychology — na American Psychological Association.3

No Brasil, somente em 2004 o Conselho Federal de Psicologia incluiu a neuropsicologia como especialidade da psicologia. Em função do caráter recente dessa prática profissional no Brasil, ainda existe muito desconhecimento sobre a neuropsicologia clínica por parte dos profissionais da área de saúde e dos próprios psicólogos.3

A prática clínica da neuropsicologia se fundamenta nas neurociências e na psicologia cognitiva, comportamental, desenvolvimental, experimental e psicometria,3 e destina-se ao atendimento de pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento, lesões cerebrais adquiridas — acidente vascular cerebral, traumatismos cranianos, entre outros —, doenças neurológicas e psiquiátricas.4

A primeira etapa do processo é a avaliação do perfil neuropsicológico com uma descrição detalhada e abrangente das funções cognitivas comprometidas e preservadas em decorrência das alterações elétricas-químicas do cérebro. A segunda etapa é a reabilitação que consiste na elaboração de um programa terapêutico holístico que inclui estratégias de recuperação das funções comprometidas, reorganização ambiental, autoconhecimento, regulação emocional e desenvolvimento de estratégias compensatórias com o uso das funções cognitivas preservadas.1,5,6

O processo de reabilitação baseia-se em mecanismos de neuroplasticidade neural de dupla via. A alteração nos circuitos neurais promove déficits na cognição; no entanto, à medida que o paciente interage com um ambiente rico em estímulos e provedor de aprendizagem, modifica as conexões neurais, criando novos circuitos e promovendo recuperação da funcionalidade e cognição.7,8 As evidências desses mecanismos são descritas em estudos experimentais e de casos clínicos.9,10

Este capítulo sistematizará, de forma didática, a prática do neuropsicólogo voltada à reabilitação. Nesse sentido, os seguintes temas serão apresentados: conceituação da RN; modelo de reorganização neural e ambiental como base explicativa da reabilitação; estratégias de reabilitação para gerar estimulação, recuperação e compensação das diferentes funções cognitivas; avanços tecnológicos e suas contribuições para a reabilitação cognitiva; apresentação de situações clínicas em casos clínicos simulados, que incluem informações de vários pacientes atendidos na clínica privada e no serviço de psicologia aplicada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ilustrando o processo de reabilitação na prática diária do neuropsicólogo.